Especial "Centenário do Partido Comunista da China" – Entrevista com Prof. Liu XiaoJuan

Uma conversa emocionante que celebra a história da República Popular da China, a importância do Partido Comunista e a cultura do povo chinês


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Liu XiaoJuan é professora e fundadora do curso de língua chinesa OiChina, sediado no Rio de Janeiro. Nasceu na China, em uma região próxima a Pequim, formou-se em Shanghai e trabalhou durante mais de 10 anos com relações internacionais para o governo chinês. Conheceu o Brasil em 1993, apaixonou-se pelo país e fundou o Centro de Intercâmbio Brasil-China. Desde então, busca facilitar a comunicação entre as duas nações no mundo dos negócios e da cultura, bem como leciona chinês para brasileiros em companhias, universidades e escolas.



Observa China. Desde a Revolução Comunista de 1949, a República Popular da China passou por muitas transformações. Tendo nascido e vivido lá até a década de 1990, você pôde ver o processo de desenvolvimento chinês acontecendo diante dos próprios olhos. Na sua opinião, quais foram as principais mudanças estruturais que ocorreram no período em que você residia na China?


Prof. Liu. Antes da Revolução Comunista de 1949, a China passou por muitas dificuldades socioeconômicas. Além disso, o mundo ocidental e o Japão, na segunda metade da década de 1940, estavam buscando reerguer-se após as tragédias da Segunda Guerra Mundial, ao mesmo tempo que já se vislumbrava uma Guerra Fria. Em meio a isso tudo, a República Popular da China nascia sob a liderança do Partido Comunista, que conseguiu rapidamente ganhar a confiança do povo.


Mao Zedong foi uma influente personalidade e uma grande referência para toda a nação, que começava a deixar para trás o seu passado recente triste e difícil para entrar em uma era de mais prosperidade. Eu nasci na década de 1960 e, mesmo nessa época, apesar de todos os esforços e de muitos avanços, especialmente no acesso a serviços básicos, como educação e saúde, não havia comida o suficiente para todos. Tínhamos um certo limite de moeda e comprávamos uma quantidade delimitada de comida. Havia uma cota de consumo para a população, pois a economia ainda não era de mercado, e sim de planejamento.


Na metade da década seguinte, Mao Zedong faleceu, e lembro muito bem como as pessoas choravam e diziam sentir saudade dele. Em seguida, Deng Xiaoping fez um excelente trabalho como seu sucessor, dando início ao processo de reforma e abertura na China. À época, enquanto o Brasil já tinha cidades mais desenvolvidas, prédios com elevador e cinemas bem equipados, na China, comprar produtos como uma bicicleta ou um relógio era difícil. Ademais, no início da década de 1980, a questão da falta de alimentos ainda era muito presente na vida dos chineses, e um exemplo do impacto disso, até hoje, é o costume de perguntar “você comeu?”, em vez de “tudo bem?”, ao encontrar com uma pessoa conhecida.


Ao longo das décadas de 1980 e de 1990, as coisas começaram a melhorar, e a China passou a ter melhores vestimentas, telefone, televisão, salão de beleza e uma boa qualidade de vida nas cidades. Mais importante que isso, o Partido Comunista, que sempre valorizou e teve a educação de qualidade como uma de suas prioridades, começou a investir pesadamente na área e a fazer esforços para reter talentos no país. O resultado disso é que, atualmente, a educação na China é de altíssimo nível, tanto nas escolas quanto nas universidades.


Além do ensino básico, a China deu muita atenção a suas universidades e companhias, almejando tornar-se um país inovador e líder em ciência e tecnologia. Cidades como Shanghai e Shenzhen possuem paisagens urbanas extremamente futurísticas e tornaram-se símbolos do desenvolvimento chinês. As mesas das famílias, seja em casa, seja nos restaurantes, é farta, e não falta mais comida para o povo. É notável a transformação pela qual a China passou ao longo da segunda metade do século XX e dessas primeiras décadas do século XXI, e o povo chinês deve muito ao Partido Comunista por isso.


Minha mãe de mais de 90 anos [...] fala que, sem o Partido Comunista, não há a nova China

Observa China. Desde 2009, a China é o principal parceiro comercial do Brasil e um de seus principais investidores. Ademais, a presença de sociedades empresárias chinesas cresceu enormemente a partir da década de 2000, fazendo com que o País do Meio chamasse cada vez mais a atenção dos brasileiros. Na sua opinião, qual foi a importância do Partido Comunista da China para o sucesso do desenvolvimento do país? Como essa maior notoriedade nacional e internacional da China no século XXI impactou o seu trabalho no curso OiChina?


Prof. Liu. A China está mudando tão rápido que, a cada ano, quando volto ao meu país, percebo que surgiram novas tecnologias e formas de fazer as coisas. Eu ainda não aprendi a usar o pagamento de leitura facial, por exemplo, algo que já é muito comum por lá. A sensação que eu tenho é que a China continua em uma trajetória ascendente, muito forte e muito veloz, mas, mais importante que isso, Xi Jinping tem falado em um desenvolvimento com mais qualidade. Isso é muito importante e demonstra como o Partido Comunista coloca seu povo em primeiro lugar. Foi graças a diretrizes governamentais corretas e bem-intencionadas que a China obteve tamanho nível de sucesso em seu desenvolvimento.


Infelizmente, uma parcela dos países ocidentais ainda não está bem-informada sobre o Partido Comunista, sua história, sua relevância para a sociedade chinesa e seu funcionamento. Quando se fala em comunismo, ninguém tem disposição de aprender mais sobre o Partido ou sobre o pensamento, a filosofia dos chineses. Diferentemente, a postura dos chineses vai no sentido de conhecer outras ideologias e culturas, absorvendo o que é bom para si e adaptando as diferenças a sua realidade. Pode até ser que o comunismo seja muito diferente do capitalismo e das ideias liberais e que não funcione para todos, mas certamente ele tem muito a ensinar, a servir como alternativa e a estimular novas formas de pensar a sociedade.


No Brasil, muitas pessoas me falavam que, na China, não havia democracia, porque não havia eleições. Além de esta ser uma informação equivocada – há eleições e há muita participação popular nas questões de Estado, apenas não no molde ocidental – esse tipo de questionamento me fez refletir sobre o conceito de democracia. Afinal, o Partido Comunista foi e é escolhido pelo povo todos os dias, possuindo um altíssimo índice de aprovação.


Nós, chineses, temos nosso próprio jeito de resolver as coisas e de organizar a sociedade, agindo de acordo com nossa realidade e com nossa cultura. Pode ser que esse nosso costume não sirva totalmente para governos e sociedades ocidentais, assim como o jeito desses talvez não sirva para nós em sua totalidade, mas podemos aprender uns com os outros e conviver em harmonia. Temos muita humildade para conhecer e aprender com outras culturas, bem como valorizamos o equilíbrio, a paz, a conciliação, mas isso tudo é uma via de mão dupla e demanda respeito, consideração e vontade genuína de troca, e não de imposições unilaterais.


Na China, o Partido Comunista tem como um de seus principais objetivos a harmonia da coletividade. Na cultura chinesa, a liberdade coletiva está acima da liberdade individual, e a ideia do coletivismo se sobrepõe ao individualismo. Pegando como exemplo os caracteres que significam nação, “国家 (guójiā)”, o primeiro está ligado à ideia de país, e o segundo, à de família. Dessa forma, se não houver um país bom (plano coletivo), não haverá também famílias em boas condições (plano individual). Isso significa que olhamos para a nação como uma grande família.


Consequentemente, a relação da sociedade chinesa com o seu governo é profunda e significativa, pois olhamos para nossos líderes como nossos responsáveis. O Partido Comunista é, então, o responsável pelo povo chinês, e não só respeitamos muito a sua autoridade como tal, mas também contamos com ele para nos liderar rumo a um futuro mais próspero e harmonioso. Durante a pandemia, por exemplo, nós confiamos no governo, nunca tivemos dúvida nenhuma que ele iria conseguir controlar o novo coronavírus na China, e assim foi feito. Minha mãe de mais de 90 anos, que viveu todas aquelas épocas turbulentas da última dinastia chinesa, fala que, sem o Partido Comunista, não há a nova China, e, realmente, ela só conseguiu viver com paz e segurança quando a República Popular da China foi fundada.


Os chineses têm um sentimento muito forte de união, e o Partido fez com que a China ficasse mais unida que nunca. A China é o que é hoje graças à liderança do Partido e ao espírito de sacrifício do povo chinês e de seus líderes. Algumas pessoas no Ocidente não entendem essa ligação, porque não conhecem a cultura chinesa. Sucessivamente, não percebem que, quando conversam com um chinês e criticam o Partido Comunista, mesmo sem nem conhecê-lo direito e acreditando estar separando o indivíduo (pessoa com quem se fala) do ente coletivo (Partido), criticam também o povo chinês em geral, pois tudo está conectado em nossa sociedade. Somos uma família.


Tudo isso que eu comentei é importante não só para reforçar a relevância dos intercâmbios culturais entre os povos do mundo e da busca de conhecimento do outro, pois a falta deste resulta em preconceito e ignorância em relação ao desconhecido, mas também porque a desinformação generalizada sobre a minha nação foi um dos grandes fatores que me levaram a lançar o OiChina no Brasil, que me conquistou logo no início. Eu amo a China, mas eu também amo o Brasil, e por isso senti a necessidade de construir uma ponte maior entre esses dois grandes países repletos de oportunidades e de possibilidades de parceria. Como eu trabalhava nas relações internacionais do governo, esse era um objetivo e uma responsabilidade para mim.


Hoje, fico muito feliz em ver cada vez mais brasileiros interessados na língua e na cultura chinesas. No OiChina, temos estudantes de diversos lugares do mundo. O número de alunos no curso tem crescido ano após ano, muitos já fizeram intercâmbio em meu país, outros trabalham em áreas de interesse para as relações bilaterais, e tenho certeza de que parte desse fenômeno está relacionada ao crescente peso da China para a economia do Brasil e do mundo. Fico contente e com senso de dever cumprido ao ver que o OiChina tem conseguido realizar os sonhos dos seus estudantes, e, consequentemente, eu realizo os meus. Eu, sozinha, sou uma ponte, mas uma ponte pequena. Sendo professora e tendo tantos alunos, eu consigo construir algo muito maior e melhor, contando com os próprios brasileiros para continuar esse trabalho.


Eu amo a China, mas eu também amo o Brasil, e por isso senti a necessidade de construir uma ponte maior entre esses dois grandes países

Observa China. Em 2021, o Partido Comunista da China, sob a liderança de Xi Jinping, comemora o seu centenário com altíssimos índices de aprovação pela sociedade. A partir da sua experiência como chinesa residente no Brasil, por que os 100 anos do Partido são relevantes para a China, para o Brasil e para o mundo?


Prof. Liu. Durante esses 100 anos de existência, o Partido Comunista da China mostrou constantemente que pensa no povo chinês e que é bom para ele. Essa é a verdade inescapável de sua história. A China retirou, em aproximadamente 40 anos, mais de 850 milhões de pessoas da linha da extrema pobreza, sendo responsável por mais de 70% da redução global da pobreza. Em verdade, o desenvolvimento da China ajuda também a desenvolver o mundo, até porque os chineses não olham apenas para si e buscam compartilhar sua experiência, suas conquistas e seu ganhos. Novamente, trata-se do pensamento coletivo, como demonstra, inclusive, a estratégia de Xi Jinping para alcançarmos uma “comunidade de destino comum para a humanidade”.


Eu, realmente, só tenho a agradecer ao Partido Comunista da China por tudo que eu e o povo chinês conquistamos. Tenho muito orgulho de ser chinesa, e esse sentimento pode ser percebido em duas histórias de família. A primeira é sobre minha filha, Wang Yili, professora e co-fundadora do OiChina. Além de atuar no ramo da educação, ela trabalha com tradução simultânea e já teve a oportunidade de prestar seus serviços em importantes eventos, como a Cúpula dos BRICS em 2014 e em 2019. Em três oportunidades, realizou tradução para o Presidente Xi Jinping, para o Primeiro-Ministro Li Keqiang e para o Ministro das Relações Exteriores Wang Yi, e o fato de esses três grandes líderes do governo terem escutado sua voz é motivo de muita honra para ela, para mim e para toda a família.


A segunda história é sobre um familiar que era muito fiel ao Partido Comunista da China e, depois que se aposentou, mudou-se para uma vila na província de Hunan, à época abaixo da linha da pobreza. Ele pegou todas as suas economias e investiu tudo para melhorar a educação e a infraestrutura locais. Ele sentia que tinha essa missão, mesmo já tendo se aposentado, e, por ser membro do Partido, queria fazer ainda mais e sacrificar-se por seu povo. Infelizmente, em 2017, ele faleceu, mas sua filha, que trabalhava em Pequim e tinha uma condição de vida muito boa na capital do país, resolveu continuar o trabalho do pai. Com isso, foi sozinha até lá para realizar seu sonho, e, hoje, a vila é tida como um exemplo para a região, tendo saído da linha da pobreza. Essa atitude dos dois foi reconhecida pelo Partido, e ambos foram premiados por Xi Jinping no início deste ano – o pai de maneira póstuma.


Na China, há diversas histórias parecidas, e essa é só uma dentre tantas outras de variadas famílias. Com o desenvolvimento da China atingindo um nível bom para o seu povo, ela começa a olhar para seus amigos no mundo. Afinal, nunca estará bom o suficiente se apenas o nosso país se desenvolve, como diz Xi Jinping. Nesse sentido, o avanço da China, de alguma forma, também é o avanço da comunidade internacional. Parabéns ao Partido Comunista por seu centenário, e parabéns para nosso grande país. Eu amo a China e sinto muita saudade. Desejo que a nossa querida nação possa seguir avançando nos próximos anos sob a liderança do Partido Comunista. Sucesso sempre!



Entrevista conduzida por: Pedro Steenhagen

Data da publicação: 1º de julho de 2021