O RMB global está a caminho. Aqui está o porquê.

Atualizado: Jul 22

Negócios & Tecnologia | Opinião.

Por Taylor Loeb.

Publicado em 15 de abril de 2021.


Original English Version at SupChina.


Ilustração por Derek Zheng



Com o acúmulo de sanções ocidentais, a urgência é crescente para a China e para a Rússia desenvolverem alternativas financeiras ao sistema financeiro dominado pelo dólar e pelo euro. O RMB, apesar de estar longe de substituir o dólar, tem lentamente ganhado força como uma moeda internacional.



Ao longo dos últimos seis meses, os EUA – com ajuda da UE, do Canadá e do Reino Unido – impôs sanções a quase 30 oficiais chineses por causa de ações em Xinjiang e Hong Kong. A China, por sua vez, respondeu implementando sanções em mais de 60 indivíduos e em uma dúzia de entidades nos EUA, na UE, Canadá e Reino Unido.


A pessoa sancionada com o perfil mais notável, a Chefe do Executivo de Hong Kong, Carrie Lam 林鄭月娥 (Lín Zhèng Yuè’é), desenvolveu o hábito de acumular dinheiro físico ao se ver sem acesso ao sistema bancário global.


A rodada mais recente de sanções, e o fantasma da espiral de desligamento entre EUA e China, elevaram o status da internacionalização do RMB de algo bom de se ter para necessário se ter. Se a China for incapaz de aumentar o uso internacional de sua moeda – e, portanto, continuar altamente exposta ao sistema financeiro global dominado pelo Ocidente – muito de sua atividade comercial poderá ficar à mercê de concorrentes. Em contrapartida, um RMB mais acessível globalmente poderia alterar significativamente a dinâmica de poder global.


A China não está sozinha em seu interesse em se afastar da ordem financeira dominada pelo Ocidente. De fato, o Ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, recentemente disse à mídia chinesa que a Rússia e a China precisam "reduzir os riscos de sanções... mudando para pagamentos em moedas nacionais e em moedas globais alternativas ao dólar".


Lavrov tem um bom ponto.


A ordem financeira que existe hoje, legado de Bretton Woods, é tanto pouco representativa quanto altamente inelástica. Os EUA, o Canadá, a UE e o Reino Unido, cujas moedas são responsáveis por 84% do comércio internacional, representam apenas 35% do PIB global e 10% da população mundial. Na economia real, se o preço da Coca-Cola subir – ou se alguém não gosta das políticas da companhia – ainda se pode comprar Pepsi. No sistema financeiro global, não existe Pepsi.


O sistema alternativo que Lavrov e outros, como o ex-governador do Banco Popular da China, Zhōu Xiǎochuān 周小川, descrevem com urgência melancólica ameaça profundamente a mais potente peça de poder não-militar do Ocidente: a moeda.


E a China é o único país remotamente capaz de construir tal sistema.


Sendo claro, a internacionalização da moeda chinesa – conhecida tanto como renminbi (RMB) quanto como yuan – não significa que o RMB substitui a ordem do dólar e do euro. Um RMB um pouco mais globalizado não dá à China o poder de impor sanções significativas, mas poderia reduzir significativamente o poder das sanções ocidentais. No momento, o que a China e muitos outros países desejam é um seguro – um sistema paralelo que opere fora do status quo assimétrico. Para isso, o RMB precisa de atingir uma massa crítica.


Se a China fosse capaz de aumentar o uso do RMB no comércio global e como ativo de reserva para, por exemplo, 10% e 10%, respectivamente – acima dos níveis atuais de 2,5% cada – ela poderia criar um sistema financeiro paralelo semi-viável.


Existem três passos-chave para se chegar lá:

1. Desenvolver oportunidades de investimento em RMB relativamente líquidas

2. Desenvolver infraestrutura de apoio a pagamentos

3. Trazer pessoas a bordo


Sem acesso a oportunidades de investimento denominadas em RMB, a moeda é difícil de ser vendida. Na realidade, a China tem muito espaço para abrir seus mercados internos e externos sem desestabilizar seu sistema financeiro. Os estrangeiros, por exemplo, detêm 30% e 25% dos títulos e das ações americanos, respectivamente. Esses números são de apenas 3% e 4,5% na China – embora estejam em alta. O crescimento do financiamento verde e a perspectiva de aumento do uso do RMB no desenvolvimento internacional, inclusive por meio do AIIB, liderado pela China, oferecem caminhos para que a China aumente o uso internacional do RMB sem comprometer as metas de políticas públicas de Beijing. Em contrapartida, tudo isso significa deixar o preço do RMB subir, o que – hoje mais que nunca – será algo difícil para o setor exportador do país engolir. Essas preocupações, no entanto, perdem a viabilidade em um mundo que é preciso de se ter. Além disso, se a China levar a sério sua estratégia de dupla circulação focada no consumo doméstico, o aumento do RMB não é apenas positivo, mas também necessário.


Há, ainda, a questão da infraestrutura. As sanções são possíveis devido aos verdadeiros controle e capacidade do Ocidente de analisar a fundo o sistema global de pagamentos. Embora a China tenha sua própria alternativa ao sistema de pagamentos internacionais SWIFT, o muito elogiado RMB digital (também conhecido como yuan digital) é a história mais importante nessa frente. Um RMB digital contornaria completamente os sistemas ocidentais e, talvez mais importante, não exigirá uma conta bancária, o que significa que as instituições financeiras serão poupadas do medo constante de violar sanções ocidentais – e que Carrie Lam pode novamente parar de acumular dinheiro físico. O RMB digital, ainda em testes em regiões seletas da China continental, ainda não passou muito tempo fora do país, mas estudos estão em andamento com Hong Kong, Tailândia e Emirados Árabes Unidos.


A grande pergunta: há apetite por um RMB global?


A resposta: absolutamente.


Em termos de mercado, conforme evidenciado pelo boom de investimento de capital estrangeiro na China, há claramente um desejo de investir em ativos em RMB.


Na frente geopolítica, a Rússia tem sido a defensora mais vocal. Atingida por um dilúvio de sanções, incluindo algumas das mais fortes anunciadas hoje, a Rússia já reduziu o uso do dólar no comércio com a China para 46% de todas as transações, sendo que, em 2015, seu uso era de 90%. O Irã, sob sanções dos EUA por quatro décadas, é outro participante óbvio. O Paquistão é outro. Amigáveis à China, governos inseridos na BRI com relações tensas e relativamente inconsequentes com o Ocidente – Mianmar, Angola e vários Estados da Ásia Central, por exemplo – também são parceiros prováveis. E, à medida que a massa crítica se desenvolve, a atratividade e a facilidade de contratação em RMB só aumentam.


Em tal ambiente, o Irã e a Coreia do Norte podem achar muito mais fácil enriquecer urânio, a Rússia, anexar seus vizinhos, e a China, construir campos de reeducação. Sem o porrete das finanças, os EUA podem recorrer a outras táticas para impor condições. Como o leitor se sente sobre tudo isso certamente dependerá de sua posição política.


Simplificando: a internacionalização do RMB, ainda que moderada, poderia minar significativamente o poder financeiro do Ocidente. A relação poderosa e desigual entre finanças e geopolítica, evidente nas recentes rodadas de sanções, começaria a ser desemaranhada. E, francamente, se – um grande se – a China for capaz de desenvolver mercados razoavelmente líquidos e otimizar o RMB digital, há pouco que os EUA e a Europa possam fazer a respeito.


A cada rodada de sanções, esse resultado se aproxima.



Taylor Loeb é mestre pelo programa de dupla graduação SAIS-Tsinghua da Johns Hopkins. No momento, ele trabalha como colaborador do Trivium China. Você pode encontrar seus textos em tloebthinks.com. Leia mais.



Tradução realizada por: Thiago P B Bessimo

Data da publicação: 21 de julho de 2021